domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mais um pouco sobre fé...



Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. (Hb 11.1)

Há algum tempo que venho querendo escrever sobre fé. Nada muito teórico, apenas alguns pensamentos frutos de leituras e conversas esparsas.

Na maioria das vezes que ouvimos falar de fé, vem-se junto a palavra certeza. Afinal na maioria das traduções da bíblia o versículo primeiro de Hebreus 11 é traduzido por certeza. No entanto, sempre achei estranho a definição de fé como certeza das coisas que se esperam. Se já se tem certeza de algo, porque deveria ter fé?

Como já falei em outros textos, os evangélicos sofrem da síndrome de querer ter certeza de tudo. Não raramente ouvimos um pregador perguntar sobre a certeza da salvação, a certeza da vitória etc. (quem quiser pode conferir outros textos do blog sobre tal assunto, por exemplo "sobre morte e fé", ou "sobre fé e ontologia")

Hoje ouvi uma ilustração para falar sobre a fé. Ela seria como alguém que pega um ônibus ao centro da cidade. Mesmo sabendo que o ônibus pode não chegar ao centro, nós acreditaríamos que ele chegará.

O que achei estranho em tal ilustração é que, se pegamos um ônibus sabendo que ele vai para o centro, se ele não chegar ao centro, sabemos que aconteceu algo no caminho. No entanto, acho que a fé consiste em pegar um ônibus, sem saber pra onde ele vai, nem de onde ele está vindo. Pegamos no meio do caminho. Não temos certeza de nada, nem sabemos se pegamos o ônibus certo, no entanto confiamos piamente que aquele ônibus nos levará para onde queremos ir. (Uma abordagem próxima a isso é defendida por Althusser em seu materialismo aleatório, mas claro num contexto não religioso, e no caso específico de Althusser, desceríamos do ônibus antes dele chegar ao fim, pois tal fim não existiria)

Kierkegaard no entanto nos mostra a fé como um "salto no escuro". Não temos certeza de onde cairemos, não temos garantias nenhuma se o que acreditamos está certo. Por isso que penso que a fé como fundamento das coisas que não se vêem faz mais sentido que "certeza das coisas que não se vêem".

Se a fé é fundamento, então é ela que "quer" que aquilo que eu tenha fé, seja realmente existente. Não é porque a coisa existe que eu acredito nela, mas o processo é inverso. A coisa existe porque eu tenho fé que ela existe.

Por favor, não caiamos na associação direta de achar então que qualquer coisa que eu acredite que exista, existe. Não é isso, mesmo porque isso não faz sentido algum.

A fé coloca o homem diante de uma questão existencial. O homem está disposto a colocar sua vida inteira sobre o esse fundamento. Isso, portanto, não é mera "crença", ou mero "acho que". A fé coloca a questão da vida e da morte em sua esteira. Por isso ela não é qualquer fundamento, mas sim, um firme fundamento. Ela não está pautada em um "achismo", mas está existencialmente arraigada no ser humano.

O homem que dá o salto no escuro, se coloca diante da vida de uma forma diferente. A partir daquilo em que ele crê, ele passa a agir de forma diferente no mundo. Kierkegaard chama esse indivíduo de "cavaleiro da fé". No entanto, tal salto nunca dá certeza de nada. Não há garantias, não há certezas. O que há é um indivíduo diante da morte tentando dá sentido à sua vida, e para dar esse sentido, é preciso que ele acredite, que ele fie toda sua existência em algo, que segundo o texto não pode ser visto.

Já nos diria Saint Exùpery "O essencial é invisível aos olhos".

A fé é portanto, o fundamento das coisas que não se vêem . É ela a base das coisas que se espera, uma vez que somente pela fé que esperamos algo que não vemos, e por isso é ela mesma a prova das coisas que não se vêem.

O que não é visto é "provado" pela fé que "cria" os objetos de sua crença. Como citado acima, não é porque a coisa existe que acredita-se nela, mas é porque eu acredito nela que é possível que a fé seja o "firme fundamento" das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêem.

A tradução de King James, afirma "Now faith is the substance of things hoped for, the evidence of things not seen". Interessante notar que King James não coloca "provas" das coisas que não se vêem, mas "evidência".

Fé não é certeza, evidência não é verdade.

Interessante notar aqui que Jesus afirma que a fé vem pelo ouvir. Ela não vem pelo ver, afinal se já vemos, não precisamos ter fé. No ouvir, a única coisa que se faz presente é a palavra, nada mais. Portanto, a fé vem com a palavra. Palavra que dá sentido, palavra que cria mundos, palavra que dá vida, verbo. Verbo se fazendo carne através das novas atitudes que brotaram ao ouvir tal palavra.

Poderíamos abordar a temática da fé por um tipo de "materialismo sociológico" e afirmar que as palavras ouvidas por uma tradição são interiorizadas em nossa consciência, depois objetivadas e se transformam em ontologia, se tornam existentes independentes do ser que as criou primeiramente. As palavras ganham vida, e, num processo de objetivação bem sucedido, tal mundo criado pela tradição se torna "óbvio", e portanto, não há como não crer que tal mundo se segue como descrito.

Notamos que tanto no primeiro caso, quanto no segundo a fé é o fundamento das coisas que esperamos, e é ela mesma a prova (ou evidência) das coisas que não se vêem, pois apenas por um ato de fé que criamos tais coisas e nos fiamos nela de tal forma que toda a nossa vida depende de tal fundamento.

Interessante notar que não é preciso nenhuma metafísica para a fé fazer sentido. Não precisamos postular nenhuma metafísica para dá à fé um status de grande importância na vida humana. A fé não é uma questão metafísica, ela é uma ação do homem frente ao mundo na busca por um sentido. Sentido esse só adquirido a partir do fundamento da fé.