sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Profissionalismo nas baias







No início apenas uma baia, nada além dela,
Falta de humanidade como qualquer outro objeto.
Nela nada havia que nos impressionasse ou nos causasse espanto
Era simplesmente uma baia.

Os materiais se espalham nela,
Tesoura, furador, corretivo, grampeador, nada de diferente do que vemos em todas as baias
Há também vários papéis presos em suas divisas
Reflexo apenas da falta de organização que assombra o lugar onde a baia se encontra.

A falta de humanidade na baia também reflete apenas a falta de humanidade do lugar
Símios fariam o trabalho do habitante da baia. Símios talvez até fariam melhor tal serviço
Pelo menos sobre eles não recairia a tristeza pela falta de humanidade.

Já pensei outra vez em robôs...
Sobre eles também não recairia tal necessidade de se mostrarem humanos
Afinal, eles seriam robôs

Engraçado que sempre nos "vangloriamos" por sermos humanos
Sermos dotados de razão, sentimentos, podermos nos importar com os outros e outras coisas
mas pra que isso se não nos importamos?

Sempre me intrigou muito a divisão que fazemos entre "ambiente de trabalho" e "outros ambientes". Acho que esta divisão apenas reflete o diagnóstico de Marx ao enfatizar o caráter alienador do trabalho na sociedade capitalista.

No trabalho somos pessoas diferentes, lá não cabe contatos humanos profundos, lá não é lugar de exercer preocupação com os outros, lá não é lugar de brincadeira, lá não é lugar de risos, ( a não ser pequenos momentos e mesmo assim, contidos) lá nos transformamos em robôs, símios, ou qualquer coisa que não humanos.

Abrimos mão da humanidade sem perceber. E o pior é chamarmos essa falta de humanidade de "profissionalismo". Seremos "bons profissionais" se deixarmos de ser humanos. Troca injusta na minha opinião, mas almejada pela maioria das pessoas. Elas querem ser bons profissionais.

Claro que elas querem ser boas pessoas também, mas isso só é válido para fora do ambiente de trabalho. O lugar de serem bons humanos é longe do trabalho. Lá é lugar de serem profissionais.

Claro que tal antagonismo não é sempre visto de forma tão oposta. Conheço pessoas que são bons humanos, e bons profissionais no mesmo ambiente. Estas estão cada vez mais raras.

Profissionalismo que nos transforma em seres não-humanos? Triste alienação vivida por nós todos os dias.

Baia. Mera baia. Tão não-humana como vários de nós, que em nome do excesso de profissionalismo negamos nossa humanidade.

Onde estou enquanto falo isso? Na baia tentando ser humano.