terça-feira, 27 de março de 2012

Diálogo com Moltmann sobre Trindade



Tendo em vista a análise do Moltmann do conceito de trindade exposto em algumas de suas obras tais como “trindade e reino de Deus”, “ciencia e sabedoria” proponho algumas questões para diálogo como se segue.

Dado o panorama da discussão sobre a trindade no pensamento cristão que se dá desde o séc II, Jürgen Moltmann procura trazer contribuições para tentar pensar a Trindade, relacionando-a a idéia do Reino de Deus.
A abordagem de Moltmann é bastante interessante e se funda na idéia de que só podemos conhecer a trindade a partir daquilo que nos foi revelado de Deus. Para ele, a revelação de Deus se dá na pessoa do Cristo, logo, não há lugar melhor para se pensar a trindade que a partir da figura do Cristo enquanto filho de Deus. Jesus então se coloca como paradigma para se entender a trindade no pensamento de Moltmann e a cruz o lugar onde esta revelação se dará de forma mais cabal.

A principio é preciso que se afirme de onde ele parte para formular a idéia que ele tem de trindade. A análise de Moltmann se constitui uma tentativa de conciliar o relato bíblico com o problema da Trindade. Partindo da revelação do filho de Deus é possível compreender uma parte da trindade imanente.

Moltmann parte de uma linha mais evangelical, isto é, a palavra de Deus é tomada como “revelação” que deve ser compreendida como “proposicional”, dessa forma a única forma de acessar a trindade é a partir da vida do filho de Deus. A articulação de Moltmann se mostra muito contundente, e embora dialogue pouco com as definições conciliares, (uma vez que acredito que ele entenda que grande parte desse trabalho já tenha sido feita), no início do livro “trindade e reino de Deus” ele consegue dar um panorama para justificar a sua posição.

Partindo da diferenciação entre o mundo grego que vê na substancia aristotélica a diferenciação entre os seres, (termo que posteriormente será substituído por essência e marcará bastante o pensamento cristão) e a idéia de “comunhão” que segundo ele permeia a idéia da trindade partindo do mundo bíblico, Moltmann tentará mostrar que a união entre pai, filho e espírito santo pode ser entendida no sentido da comunhão, embora ele trabalhe muito com o conceito de essência para explicar a noção de Trindade.

Há de se admitir que ao se tentar falar da trindade a partir da noção de essência, ou substancia realmente fica extremamente complicado assumir um discurso que seja plausível, mas mesmo assim é algo que Moltmann ainda tentará fazer em vários de seus livros.

Moltmann defenderá uma idéia que particularmente acho pouco defensável. Assumir que Jesus na Kenosis se esvazie apenas de seus atributos, mas manteria uma “essência divina” é assumir que ele é Deus, uma vez que a essência é aquilo que define o que o objeto realmente é. (Obviamente não cabe aqui uma discussão do conceito de essência, mas parto apenas da pressuposição de que a essência é algo que define o objeto de tal forma que a um objeto equivale apenas uma essencia. Um objeto não pode possuir duas essencias, uma vez que a essencia determina um ser específico, ou uma espécie especialíssima para fazer alusão a porfírio) Agora, pela própria definição de “essência”, é impossível o discurso da “união hipostática” que seria uma das bases para Moltmann afirmar a trindade.
A kenosis, se é apenas de atributos é um esvaziamento parcial, ou auto-limitação para usar o termo de Moltmann. Se a essencia é divina, ela não pode ser humana, e vice-versa, pela própria definição de essência.

A idéia comum geralmente defendida de que Jesus seria cem por cento homem, e cem por cento deus se torna completamente inconsistente logicamente falando, e não é possível alargar o conceito de essência para encaixar a união hipostática na natureza do Cristo. Ou Cristo é humano, ou ele é divino. A não ser que alarguemos o conceito de “divino” para que seja possível a todo homem ser divino.

Para Jesus ser homem e Deus, e ainda assim ser homem como eu sou homem, é possível que eu seja Deus assim como ele é Deus. Esta conclusão se dá quase que logicamente, se assumo que ele é um ser humano igual eu sou um ser humano. Jesus não pode se identificar comigo na dor e diferenciar-se de mim na essência.

Outro problema que pode ser apontado em Moltmann é a defesa da idéia de pecado original que sustenta o enorme paradoxo que impossibilita a união hipostática a partir de uma noção de essência.
Tal paradoxo pode ser mostrado por um simples silogismo


Todo homem nasce pecador
Jesus nasceu como homem
Logo, Jesus nasceu pecador

Se eu nego a primeira premissa, logo preciso negar a idéia de pecado original, o que leva o homem a nascer sem pecado (o que a meu ver, não prejudica em nada a antropologia teológica nem mesmo a soteriologia). Mas a linha mais evangelical defende a idéia do pecado original, até mesmo a partir de outros textos bíblicos tais como Rm 3: 9-18 , Rm 3:23, Rm 5:15-19, Sl 51:5, Ef 2:1-3 dentre outros textos.

Afirmar que Jesus deve substituir o “Adão antes da queda” e não o homem em geral, se constitui uma quebra da humanidade do Cristo como um homem comum. Afinal, Jesus deve ser homem como eu sou homem para que ele possa sofrer como eu sofro. Só mesmo uma identificação radical com o ser humano e não com um ser humano “in potentia” que possibilita que ele se identifique com a minha dor. Se ele sofre de forma diferente da minha, então seu sofrimento não pode servir de paradigma para o meu sofrimento, uma vez que ele sofre como ser diferente de mim.

Há de se considerar também a crítica de Feuerbach neste ponto, que nos mostra alguma confusão no cristianismo ao falar de “homem em geral”. Jesus não pode assumir a “natureza humana genérica”, mas para ser homem ele deve ser homem como eu sou homem, um ser individual e não um ser abstrato.


Se nego a segunda premissa, nego a doutrina da encarnação, ou pelo menos a forma como ela tem sido traduzida até os dias de hoje. Daqui surge um outro problema que não é resolvido nem pelo “traducionismo” - Doutrina segundo a qual a alma humana é gerada (per traducem) da alma dos pais, formulada por Tertuliano no segundo século do cristianismo, nem mesmo pela doutrina criacionsita da alma – que afirma que Deus cria a alma de cada indivíduo ex-nihilo, posição defendida Jerônimo dentre outros. Se Jesus tem sua alma herdada dos pais (traducionismo) logo ele deverá nascer pecador, uma vez que é homem e sua alma é traduzida da dos seus pais. No entanto, se ele tem sua alma criada ex-nihilo, por Deus, esta alma, para ele ser homem, tem que ser uma alma humana, não pode ser uma alma divina, afinal, se assim o fosse, ele não seria homem como nós somos homens. Ambas teorias se mostram pouco conciliáveis com a idéia de pecado original.

Se Jesus nasce sem pecado, como esse pecado é transmitido aos outros seres humanos? Por meio da concepção? (Uma vez que Jesus teria sido concebido sem pecado pelo fato de não ter tido participação humana em sua geração, como defendem vários teólogos desde os patrísticos). Se for por meio da concepção, não há outra saída a não ser encarar o próprio sexo como pecado, o que no meio cristão não é o caso. O próprio Vaticano defende o sexo como tendo fim apenas procriativo.

A conclusão se segue do silogismo.

Se Jesus tinha algo a mais que os homens teriam, ou ele não é humano, ou ele é um humano diferente de mim, o que nesse caso, torna o seu sacrifício bastante limitado, uma vez que ele não sofreu como os homens sofrem, mas como um “homem específico”, diferente dos “homens comuns”.

Ou se abre mão da doutrina do pecado original, ou se abre mão da cruz como sacrifício de identificação com o homem. Ambos são inconciliáveis.

Na análise de Moltmann, a trindade que parte do Cristo como revelação de Deus tenta mostrar como se daria a relação entre Pai, Filho e Espírito Santo. Nesse sentido, Moltmann reformula algo que já está presente em Gregório de Nissa, Tertuliano e outros patrísticos que debateram exaustivamente estas questões, e afirmavam dentre outras coisas que o filho era gerado pelo pai e o espírito era “soprado” pelo pai, mas ambos seriam uma mesma “substancia” que se “interpenetram” mutualmente (Pericorese), mostrando a comunhão entre as pessoas da Trindade.

Acredito que o ganho de Moltmann seja ter tratado da divisão proposta por Karl Rahner entre Trindade imanente e Trindade econômica associando a isso uma “Teologia da Cruz” de Lutero que lhe permite falar de um Deus que sofre.

A meu ver a proposta de Moltmann se mostra filiada a toda uma tradição neo-orotodoxa, ou evangelical e por isso acaba caindo no problema de tentar justificar “biblicamente” proposições que não podem ser defendidas a partir do relato bíblico apenas, mas deve ser buscada em outras fontes, quer sejam culturais, sociológicas, etc...

A questão da trindade, mesmo sendo muito bem articulada por Moltmann, por partir dos mesmos pressupostos da tradição acaba caindo nos mesmos problemas da tradição, que alguns são levantados aqui de forma apenas incipientes, mas demonstrando que se partimos da definição de essencia ou substancia, é impossível resolver os paradoxos para justificar a trindade da forma como tem sido feita.

É sabido que a doutrina da trindade até hoje é alvo de inúmeras discussões e que a adesão a uma forma de associação ou outra se dá mais por um ato de empatia que por “argumentos lógicos”, o que torna um assunto extremamente interessante a ser debatido dado os novos paradigmas da pós-modernidade. Nesse sentido, não cabe apelar para Dt 29:29 e afirmar que isso é um mistério que pertence apenas a Deus. Talvez a adesão à doutrina da trindade deverá se dar apenas de forma existencial, o que não deixa de ser uma possibilidade, no entanto, mesmo se for o caso, ela carece de explicação se quisermos "defende-la racionalmente" como vários teólogos tentaram e até hoje tentam.

Obviamente é impossível fazer uma análise muito abrangente da questão da trindade em tão poucas linhas, mas acredito ter apontado aqui algumas questões a serem pensadas sobre o tema. Claro que várias destas questões já foram amplamente debatidas por diversos teólogos, filósofos, no entanto, acredito que uma postura mais próxima à teologia liberal daria um suporte interessante para se pensar a trindade a partir de uma inserção social, pensando-a simbolicamente. Talvez a associação feita por Agostinho entre Trindade e mente humana, analogamente colocada entre “mente, conhecimento e amor” ou “memória, inteligência e vontade”, seja algo a ser retornado para pensarmos a idéia da trindade a partir do símbolo que tem na pessoa de Jesus a sua manifestação mais autentica.