sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pequena reflexão sobre Eclesiastes 7:14






No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele. (Ec 7:14)


Não há dúvidas para qualquer leitor do texto bíblico que o Deus retratado ali é um Deus que exulta, um Deus que sorri, que olha com bons olhos para todos aqueles que se colocam diante dele com um coração sincero. Essa face de Deus visível ao homem nem sempre é enfatizada nos cultos nas diversas igrejas, mas geralmente se dá uma ênfase muito grande no "Deus que tudo vê" como um grande olho pronto para devorar àquele que não faz o que seria correto. 

Esquece-se que Deus é um Deus que ouve antes de ser um Deus que vê. Se pensarmos na criação como descrito no livro de Gênesis percebemos que Deus diz o mundo antes de vê-lo, só depois que a palavra é dita e ouvida, esse Deus vê que tudo é bom. Os ouvidos estão sempre atentos, mas não para procurar algo para nos incriminar pela boca, mas atentos à oração, esta prática tão cara à toda religião. Uma tentativa do homem entrar em contato com o divino, expressar-se como um ser capaz de mobilizar algo em Deus. Talvez aqui esteja uma grande limitação da doutrina da providencia divina. Se esta é verdadeira, a oração perde seu sentido. Se tudo está determinado, a oração não passa de mero dizer ao vento onde esperar uma resposta não faz o menor sentido. A voz que pede tem de volta apenas o silêncio de quem já tem tudo determinado.

Um dos textos que deixa essa face de Deus mais clara na minha opinião é o livro do Eclesiastes. O autor do texto enfatiza uma vida onde Deus se faz presente em todos os momentos da vida. Mesmo na vida caracterizada pela inutilidade é possível ver Deus agindo por meio das pequenas coisas. Mas não um Deus etéreo, distante, controlador, mas um Deus que celebra a vida, e vê nela um fim último. 

É sempre bom lembrar que no discurso do Eclesiastes não há a noção de ressurreição. O texto escrito por volta do século II a.C desconhece esse conceito, ou seja, o que impera na visão do Eclesiastes é a estrutura judaica de que a morte é o fim de todas as coisas. Depois dela não há nada a ser feito, e se é assim, a vida deve ser vivida da melhor forma possível, e Deus se fará presente de forma última na dinamica desta vida. 

O apelo do Zaratustra de Nietzsche "Amigos, mantenham-se fiéis a esta terra" é compartilhada pelo Eclesiastes que vê na vida terrena o lugar por excelencia da manifestação do divino. O divino que não se revelará como algo alheio e distante, mas se revelará na alegria exultante das coisas simples. Talvez daí seja possível ao Eclesiastes louvar a alegria depois de constatar a inutilidade das diversas obras que se fazem debaixo do sol e ao mesmo tempo afirmar que para o homem nada há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se 
(Ec 8:15). E se realmente é assim, resta ao homem viver a vida que lhe é dada por Deus da melhor forma possível, reconhecendo-O como aquele que não determina as coisas, mas permite que tudo aconteça da mesma forma a todos, quer ímpios, quer justos (e aqui vê-se claramente uma negação completa a toda doutrina da retribuição descrita desde o Deuteronomio segundo a qual Deus pune os maus e recompensa os bons), afinal "o tempo e o acaso ocorrem a todos" (Ec 9:15). 

O sábio para o Eclesiastes é aquele que percebe a dinâmica evidenciada acima, e então pode se alegrar no dia da alegria e no dia da adversidade ver que Deus fez tanto um quanto o outro, o que o faz perceber que "a realidade está bem distante e é muito profunda  (Ec 7:24) e, portanto,  nunca conhecerá de fato ela toda, nem mesmo todos os seu dias, mas percebe que nem por isso deve deixar de fazer sempre o melhor na única vida que lhe foi dada. A consciência da limitação permite se lançar na vida abertamente, e apenas quando a vida se torna um fim último é possível desfrutar a vida como graça, como dom gratuito, mesmo a vida permanecendo sem sentido.