domingo, 12 de julho de 2015

Retratos da insensibilidade





A discussão seguia de maneira bastante contundente. A questão em pauta era sobre uma pessoa em comum que vinha passando por alguns momentos não muito bons.

Pessoa 1

- Quem tem tempo para tanta lamúria sem fim? Quem tem tempo pra ouvir tantas reclamações, ponderações, questionamentos que não levam a lugar nenhum por horas a fio? Quem em sã consciência pararia a sua vida simplesmente para servir de apoio para alguém?

Em um mundo em que as pessoas raramente encontram momentos de paz nem mesmo para si, mas muito pelo contrário,  se encontram sempre atolados em inúmeros afazeres para cumprir com prazos, alcançar metas, enviar coisas, quem pode se dar ao luxo de tirar um tempo para ouvir o próximo ao seu lado que sofre? Quem que tem disposição para esse tipo de coisa? Ou pior, quem é capaz de tirar o seu melhor tempo para isso?  De vez em quando até aparecem algumas pessoas que se dispõem, mas para o tipo específico que falo aqui, nem mesmo o mais disposto dos seres é capaz de suprir tal demanda. A demanda dele é por um outro tipo de coisa. Sei lá o que seria, mas com certeza não sou eu que serei capaz de resolver os problemas dele. Pra falar a verdade, não estou muito afim de me envolver com isso. Sei lá, também tenho os meus problemas.

Pessoa 2

- Que ela não sofra então ! Afinal, se ela não é capaz de aturar a si própria porque recairá sobre mim fazer esse esforço por ela? Por que ela não pode agir como todas as pessoas normais que conhecemos e lidar com seus próprios problemas sem demandar o tempo e a atenção dos outros? Será que para ela as coisas são tão mais fáceis assim que pode se dar ao luxo de ficar pensando em inúmeros problemas comuns a todos, mas que nem por isso todos saem espalhando e lamuriando aos quatro cantos do planeta? Que fraqueza absurda é essa desse indivíduo? Que carência por atenção é essa que assola esse sujeito de forma que tudo parece sem saída?

Por que ao invés de sofrer ela não busca uma ajuda profissional? Existem milhares de psicólogos com seus escritórios vazios procurando pacientes para escutar. Por que ela não vai em um desses que tem aos montes ao invés de importunar constantemente a nós que estamos aqui cuidando das nossas vidas e tentando fazer o que precisamos? 
Agora além de ter que cuidar da minha vida, dos meus afazeres, dos meus compromissos, eu ainda preciso cuidar e me preocupar com outra pessoa que não é nada minha? Serei eu que assumirei esse fardo? Pra que faria isso? 

Pessoa 3

- Às vezes acho que esse tipo de pessoa apenas quer chamar a atenção. Nada mais. Elas são como grandes buracos negros que precisam sugar tudo e todos que passam à sua volta sem deixar nada escapar da sua sucção. É como se diante delas tudo parecesse como algo a ser devorado e por isso nunca se saciam da atenção que lhes é dada, da preocupação que lhes é direcionada, sempre acham pouco, sempre reclamam por mais, insaciáveis que são essas pessoas. Provavelmente o caso dela é mais um desse tipo; e se realmente for isso, não sou eu que serei sugado para dentro desse redemoinho sem fim de carência. Eu não ! Eu tenho minhas coisas, minhas obrigações ! Na medida do possível posso até me oferecer pra ajudar quando der, talvez de vez em quando, mas me recuso a ser sugado para dentro dessa loucura.

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No quarto ao lado a pessoa em comum ouvia tudo aquilo sem saber o que dizer, afinal ela não tinha noção do estorvo que estava se tornando para os que com ela viviam. Ela agora não sabe o que fazer, pois as últimas linhas de sustentação de sua rede se encontravam ali, e depois de ouvir tudo isso tem sérias dúvidas se ainda está apoiada em algo.