segunda-feira, 29 de junho de 2015

Uma crítica construtiva - Seminários e Missões







(Continuação)

Quando pensamos em missões na atualidade várias questões, portanto, aparecem para nós e tentar pensar que o mundo é o mesmo da década de 60 e 70 (época em que vários missionários vindos de diversas missões americanas aportaram no Brasil) é no mínimo algo ingênuo por demais para que fiquemos presos a isso. Nesse sentido é interessante notar como que os centros de formação de missionários em sua maioria ainda trabalham na mesma dinâmica de 50 anos atrás, com os mesmos dados, com as mesmas táticas, etc. Ou seja, regime de internato, pagamento de mensalidade pelos estudantes que às vezes pagam com trabalho braçal, ideologia de que ali encontrarão um "jeito novo" de evangelizar, mas que apenas são as velhas ideologias com caras novas. A noção de um "chamado especial de Deus" também é algo que ainda se faz muito visível nesses tipos de centros de formação.

O mundo hoje é muito rápido, a quantidade de informações disponíveis na internet, jornais, revistas é astronômica de forma que qualquer um pode se formar em qualquer coisa praticamente pela internet, ainda mais se tratando de cursos de teologia e capacitação missionária. No entanto ainda se vê um lobby muito grande por parte dos centros missionários no sentido de levar as pessoas para lá, como se lá fosse um lugar onde Deus falaria de forma diferente, ou que as pessoas que estarão lá serão "instrumentos" nas mãos de Deus para ajudar quem quiser ir pregar na África ou na janela 10x40. (Janela 10x40 é um termo utilizado pela igreja evangélica para delimitar uma região do globo em que há menos cristãos no mundo. Essa janela compreende o oriente médio até a Coréia do Norte e é onde há mais relatos de perseguição a cristãos no mundo)

Quando olhamos de perto para esses centros de formação missionária vemos que na maioria deles sobra boa vontade e falta várias vezes conhecimento bíblico, teológico ou até mesmo conhecimentos administrativos de forma que não raras vezes vemos diversos desses centros missionários quebrarem ou viverem sob muita penúria para conseguir pagar suas contas em dia. Isso se dá porque para vários seminários a principal fonte de renda vem da igreja que mantém o seminário, que por sua vez conta com ofertas dos seus membros, e a renda também vem da mensalidade que é paga pelos estudantes para viverem e terem aulas lá. Como esses estudantes várias vezes também dependem das ofertas da sua igreja, a situação fica extremamente complicada, pois em várias igrejas essa oferta aos missionários é bem flutuante de forma que várias nem enviam as ofertas todos os meses, ou quando enviam o valor chega a ser várias vezes irrisório para o sustento do missionário. O que nos leva talvez ao próximo ponto que gostaria de ressaltar. 

No mundo da hiper especialização é praticamente inadmissível que um jovem de 18 anos não tenha algum tipo de profissão que possa gerar para si alguma remuneração, de forma que a ideia de que alguém seja "sustentado" por outra pessoa soa extremamente estranha para várias pessoas.  Há 40 anos atrás talvez tal ideia de ser sustentado por outra pessoa não fosse ainda tão estranha, basta lembrar que muitos missionários vieram para o Brasil sendo sustentados por suas igrejas, de forma que conheço vários que se deram muito bem e vivem confortavelmente há vários anos sendo sustentados por suas igrejas. No entanto, e esse é o meu ponto, no mundo atual é praticamente impensável que alguém vá para um seminário ficar por lá para sair depois de 1, 2 ou 4 anos sem ter aprendido nenhum tipo de profissão, ou sem aprender nenhum tipo de habilidade útil para o mundo, mas tenha aprendido apenas a ser um "novo adorador", etc. 

Algo curioso a ressaltar é que na maioria dos centros missionários que tenho notícia, a formação é apenas "teológica" (e coloco teológica entre aspas pq realmente o tipo de formação na maioria dos seminários que conheço é de cunho muito mais neopentecostal, focado em revelações, dons, espíritos de profecias, etc do que propriamente teologia propriamente dita) de forma que o aluno sai de lá sem nenhum tipo de profissão que possa ser útil para a sua comunidade ou até mesmo para o suposto país para onde Deus o chamou. A noção de que "Deus não chama os capacitados, mas capacita os chamados" é muito utilizada como forma de legitimar o péssimo entendimento de missões que ronda os diversos seminários. 

Se a coisa funciona dessa forma como estamos falando, devemos nos perguntar "que tipo de missionários saem desses seminários que trabalham dessa maneira?" Geralmente saem pessoas extremamente despreparadas para o mundo hipermoderno, mas com excesso de boa vontade, acreditando piamente que chegará em algum lugar do mundo e as portas das igrejas vão se abrir, e ela vai trabalhar com missões e será tudo lindo. Uma utopia que é vendida e comprada por muita gente, mas que a cada dia vemos que tem caído em desuso, pois o próprio mundo demanda um outro tipo de missionário, não mais aquele de 40 anos atrás. 

Os missionários de hoje tem talvez muito mais a cara de um "médicos sem fronteiras", um "wwf" do que a de um arauto de um discurso sobre a Bíblia, já que o próprio entendimento do lugar da religião no mundo tem mudado drasticamente nos últimos anos. Os missionários de hoje devem ser pessoas que possam contribuir efetivamente com a sua comunidade, quer seja dando aulas na área de sua formação, quer seja como marceneiro, carpinteiro, médico, dentista, advogado, etc, ou seja, hoje em dia não há muito espaço para um missionário que não seja também outra coisa além de missionário. A noção do "missionário profissional" está a meu ver fadada ao desaparecimento. 

Se olharmos para o texto bíblico veremos que a noção de "missionário" proposta por Jesus parece muito mais com isso que estamos colocando do que com a ideia de negação do mundo secular. Jesus durante toda a sua vida, até onde se saiba, exerceu sua função de carpinteiro e trabalhava de forma secular, afinal, essa era uma boa forma de se manter em contato com o mundo real, das pessoas reais, o mundo do trabalho que sempre é o mundo humano. Querer negar esse aspecto em nome de uma espécie de ascetismo light (que abre mão apenas das mazelas do mundo, mas não de suas benesses em seus refúgios envoltos de adorações, preleções, etc.) soa como um grande contrassenso. 

Se o cenário que vislumbramos nesse terreno se dá dessa forma, fica sempre a questão de saber que tipo de evangelho, ou que tipo de discurso é levado quando finalmente saem esses missionários para o campo depois da formação nos seminários. E aqui percebe-se toda a debilidade da maioria dos seminários evangélicos no quesito "formação para o século XXI". O discurso que geralmente vemos sair da boca dos "novos missionários" é um discurso extremamente dicotomizante, fundamentalista, sem muito diálogo com as novas inquietações do mundo, mas dotado de uma certeza quase que indestrutível. Nos seminários eles são ensinados que a Bíblia deve ser lida de uma forma tal, que as questões X,Y,Z tem as respostas a,b,c, como se o mundo devesse de alguma forma apenas aceitar o discurso que eles tem para levar. Várias vezes esses missionários adotam uma postura extremamente taxativa e pouco dialogal, pois falta até mesmo para eles um conhecimento de causa que o capacite a discutir de forma mais profunda determinados temas. 

A preocupação que os move é "pregar o evangelho a toda criatura", "ganhar almas para o Senhor", "anunciar Jesus aos povos", mas nunca se perguntam: "Qual evangelho?" "Qual Jesus?" 
A meu ver há uma diferença gritante entre "anunciar Jesus" e "anunciar um discurso sobre Jesus". O primeiro se dá apenas por meio de uma vivência, por meio de atos que comprovem bons frutos, por meio de ações efetivas no mundo que o deixam melhor do que quando a pessoa não estava lá, que faz a diferença até mesmo sem palavras; um anúncio várias vezes silencioso, mas que por isso fala muito mais alto do que cultos em praças. O segundo é o que na maioria das vezes vemos, ou seja, uma verborragia no sentido de explicitar textos bíblicos, falar que apenas o evangelho salva, discursar sobre as cartas de Paulo afirmando quem está certo e quem está errado, se colocar contra as outras religiões afirmando que Deus o mandou para tal lugar para que a obra de Dele seja feita, pois o povo ali (que por não ser evangélico) está em completa perdição e precisam da salvação. Salvação essa entendida como pertencimento à minha religião, adoração à minha concepção de Deus, aceitação ao meu discurso sobre Deus. Esse segundo tipo de anúncio talvez seja o mais estimulado nos seminários evangélicos até hoje, afinal, é o mesmo discurso de 40 anos atrás, mas que ignora as diversas mudanças que vem acontecendo no mundo.

A meu ver a maioria dos seminários evangélicos (no Brasil e fora dele) precisam passar por uma reformulação se quiserem ainda ter algum papel no mundo contemporâneo, e a meu ver, essa mudança passa principalmente por uma conscientização de que o mundo está mudando, está com novas inquietações, está com outras demandas que não mais se respondem com discursos fundamentalistas ou com discursos românticos. A formação missionária precisa passar pelo mundo do trabalho, pela capacitação profissional, pela formação (várias vezes) acadêmica para que esse missionário possa sair do seminário capacitado para as demandas atuais. 

Sabemos que há vários missionários que fazem muito com extremamente pouco. Conheço vários que abriram mão de tudo para pregar o evangelho em cidades remotas, vilarejos afastados de tudo e todos, que foram com uma ideia sobre o que era ser missionário e chegaram lá e viram que as palavras, os discursos sobre Deus era o que menos importava se quisessem realmente "anunciar Jesus" e se voltaram para uma ação efetiva no mundo. Cuidando das pessoas, ajudando no que podiam a partir daquilo que sabiam fazer. 

Acredito que se os seminários e os centros de formação missionária focassem em capacitar esse indivíduo que quer fazer missões, o estimulasse a estudar secularmente, o estimulasse a ter uma profissão, a saber fazer algo de útil ao invés de simplesmente ficar preparando cultos em igrejas e apresentando peças de teatro, sua força seria muito melhor aproveitada e talvez esse indivíduo perceberia que pode ser um missionário a qualquer momento e em qualquer lugar, bastando para isso apenas "andar como Ele andou".