sexta-feira, 15 de abril de 2016

O café entre o individualismo e a coletividade









Ontem foi comemorado o dia internacional do café. Muitos comentários e postagens diversas em várias redes sociais atestavam esse fato para nós e ficou bastante óbvio algo que todos nós já sabíamos de antemão, que é o fato de muita gente gostar de café. Para qualquer pessoa minimamente familiarizada com a vida dentro de uma empresa fica indiscutível o fato de que o café, esse líquido preto, é ao mesmo tempo agregador, causador de intriga, motivador, e em alguns casos até mesmo o combustível que mantém a empresa funcionando. Tirando talvez o "dinheiro", o café talvez seja o bem mais valioso de qualquer empresa e forças não são medidas para que o mesmo nunca falte.

Penso que um verdadeiro discurso motivador no ramo empresarial precisa necessariamente passar pela importância do café na vida do trabalhador. O café é quase um direito inalienável que precisa ser defendido a todo custo, se quisermos ser bem "lockeanos" nesse ponto. Qualquer discurso motivador, para ser minimamente crível, demanda essa resposta àquilo que é mais importante para o trabalhador na empresa, e nesse e em inúmeros outros casos, o café se coloca como esse objeto último de desejo sem o qual o funcionário cairia num abismo de ausência de sentido. 

Nos órgãos públicos a função do café chega a ser quase a de uma entidade que coordena todas as coisas. Na universidade em que trabalho há até um dito de sabedoria popular que diz que se tirarem o reitor nada de fato mudaria na universidade, mas se em algum momento retirasse a pessoa responsável pelo café... isso seria o caos, a barbárie instaurada. (Visão bastante pessimista)
A importância do café nos setores públicos é visível até para quem não trabalha lá. É mais que famosa a "hora do cafezinho" em que os diversos servidores se juntam ao redor do café para simplesmente ficarem ali parados apreciando o "bom" café. Pelo fato de haver geralmente "apenas o café" (pois a maioria dos órgãos públicos não oferecem nada além disso) a noção de "partilha" (no melhor dos casos) acaba se fazendo presente entre os funcionários e o café ganha ar de "reunião" feita para decidir assuntos dos mais diversos. 

Fica óbvio que o café acaba sendo essa espécie agregadora dentro do ambiente empresarial e inspira, portanto, uma questão interessante: "uma vez que o café não pode ser ens causa sui, isso demanda que perguntemos sobre qual o agente, ou qual a causa eficiente (para falar igual Aristóteles) que faz com que o café deixe de ser uma mera "ideia agregadora" e passe a ser de fato esse "elemento agregador" que habita entre nós. Colocando de outra forma; Quem faz o café? (Obviamente que a pergunta só faz sentido em setores onde não há uma pessoa responsável para esse tipo de trabalho. Em um setor em que há uma "copeira" ou alguém responsável por fazer o café, essa pergunta simplesmente não se coloca, pois a existência do café é garantida por uma causa eficiente fixa)  E aqui há algo bem interessante, pois a meu ver, a disposição evidenciada em se fazer o café "para todos" remete ao grau de coletividade de um determinado setor. Quanto mais plural for a lista dos que fazem o café para todos, mais coletivo é o setor. E da mesma forma, quanto menos plural for a lista do que fazem café para todos, mais individualista é o setor. 

No setor público em que trabalho não há uma pessoa responsável para se fazer o café, pois com os cortes no orçamento a copeira foi mandada embora. (para os pessimistas citados acima isso seria motivo para o fechamento do setor, mas conseguimos contornar a situação) Dessa forma é preciso que os funcionários do setor se organizem para que o café de fato venha a existir. E aqui uma dinâmica muito interessante acontece, pois se percebe que a maioria das pessoas querem tomar do café, mas ao mesmo tempo não querem fazer o café. Há uma rotatividade na "fazedura do café", mas ela é muito restrita em relação  ao número de pessoas que efetivamente "tomam do café". Isso a meu ver remete a uma dinâmica de distanciamento das pessoas em relação ao setor em que trabalham. Na maioria das vezes tais pessoas, quando questionadas sobre o porquê não fazer o café para todos, respondem que não fazem porque "tomam café poucas vezes", ou porque acham que "ninguém vai gostar do meu café". São desculpas um tanto estranhas a meu ver para pessoas que não vêem distinções entre os diversos cafés que tomam no decorrer do ano. Independentemente de serem "bons cafés" ou "cafés ruins" os indivíduos tomam sem nenhum problema.

Essa dinâmica de apenas se beneficiar do café sem nunca empreender um esforço em proporcionar o mesmo para o outro mostra que há uma espécie de fissura no setor. Tal fissura que essa relação com o café atesta não se mostra apenas aparente, mas se mostra do ponto de vista estrutural, o que a meu ver compromete a ilusória (mas necessária) noção da coletividade setorial.  Afirmo que a fissura é estrutural porque ela tem a ver com a relação criada entre os funcionários de um determinado setor, i.e, tem a ver com a forma como a coletividade é construída e a forma como cada indivíduo se relaciona com a dinâmica do trabalho.

É já clichê afirmar que a nossa sociedade hipermoderna é extremamente individualista e coisas do tipo, e também já é clichê afirmar que as noções de "coletividade" "bem comum" se tornam cada vez mais "carentes de sentido" a cada dia que desenvolvemos tal modo de vista individualista, no entanto o que o café nos mostra é que até mesmo elementos que antes eram vistos como possuindo apenas caráter agregador podem se tornar em elementos que apontam para fissuras estruturais. Dessa forma o café marca esse ponto de torção interessantíssimo entre o limite do individualismo setorial e uma noção parca de coletividade que passa pelo compartilhar da "fazedura" do café.

Claro que, por incrível que pareça, há pessoas que simplesmente não se importam com o café, e talvez para essas pessoas a questão que coloco aqui pouco importa, pois nunca pensaram de fato em que medida esse café representa essa noção de coletividade de que todo setor necessita. Mesmo que tais pessoas não se importem com o café, é interessante notar que tais pessoas também pertencem ao setor e por isso também estão implicadas na relação que o café acaba representando. Diante disso acabam sofrendo as consequências de sobreviver diante da fissura setorial. Ou seja, quer nos importemos ou não com o papel que o café exerce sobre nós dentro de uma empresa, estamos todos implicados em tal dinâmica. 

Se o café se mostra como esse grande ponto de torção entre o individualismo e a coletividade, fazer o café para todos mesmo quando isso não é uma obrigação do sujeito se mostra como um grande ato subversivo e ao mesmo tempo um ato que insiste em não sucumbir à dinâmica individualista que visa a tudo dominar. Fazer o café se mostra como uma tentativa diária de manter o elemento agregador mínimo necessário para que o setor não sucumba ao mundo das mônadas não comunicáveis. Isso a meu ver dá à tarefa uma dignidade enorme e por isso tal atividade deveria ser partilhada e querida por um maior número de pessoas dentro de um setor.