domingo, 12 de junho de 2016

Oba ! Um texto do Veliq sobre relações afetivas !








Em qualquer tipo de relacionamento afetivo o grande desafio é sempre conseguir lidar com o fato de que a forma que o outro resolve demonstrar o seu amor por nós pode diferir bastante da forma que nós demonstramos o nosso amor para com ele. A tentação aqui, se percebe facilmente, é evitar a todo custo a figura de Procusto, pois tal figura, além de gerar em nós expectativas que não serão correspondidas da forma que queremos, ainda mostra que caminhamos pouco em direção à aceitação do outro enquanto indivíduo dotado de liberdade de escolha. 

Por mais que falemos, expomos, justificamos nossas razões, evidenciamos a importância de determinados gestos que para nós são significativos, ainda assim caberá sempre ao outro atender ou não a essa demanda. E a meu ver, quanto mais nos colocamos no papel daquele que cobra determinada ação do outro, mais demonstramos para ele a nossa carência afetiva e a nossa dependência dele. 

Esse movimento último é também extremamente curioso na medida em que a princípio não há nada de errado se mostrar dependente, em alguns aspectos, de outra pessoa; em vários momentos isso pode ser extremamente saudável e sabemos o quanto é bom termos pessoas com quem podemos confiar independente da situação. Por outro lado, ao mostrar a nossa carência afetiva para o outro, nos sentimos (até para nós mesmos várias vezes) como "o mais fraco" da relação. Como aquele que sempre está "atrás" do outro e nunca como alguém "almejado" por ele. Como alguém que pode simplesmente ser deixado de lado em nome de qualquer outra tarefa "mais importante". Esse movimento é algo que acontece com certa frequência em diversos relacionamentos em que a proximidade é grande. Cabe notar aqui que tal sentimento deriva diretamente daquela expectativa criada que falávamos há pouco, ou seja, deriva da espera que o outro vá agir da mesma forma que nós agiríamos em determinada situação.

Como mostramos um pouco mais acima, é bastante claro que a liberdade da ação do outro em relação à nossa demanda determinará em última instância a forma como ele agirá quando for convocado a dar uma resposta. O outro pode simplesmente não se importar com aquilo e transformar tal questão em um "problema menor" de forma que tudo não passará de um "ataque histérico", algo "fruto do cansaço", e uma vez minimizado o problema, a chance de uma resolução autêntica na relação deverá seguir por um outro caminho que não o adotado até o momento. A outra alternativa é sempre a esperada, afinal ela é aquela que se propõe ao diálogo, a entender exatamente o peso da questão para o outro, é ela que proporá alternativas e possíveis saídas para que ambos se sintam confortáveis na relação. Geralmente essa alternativa é a menos adotada  na maioria dos relacionamentos, pois para tal alternativa é preciso o pressuposto da disposição que fere o meu desejo de onipotência em relação ao outro. 

Muito pouco às vezes é necessário para trazer alegria ao outro; e talvez a simplicidade e a facilidade disso nos leve a querer buscar sempre os gestos grandes, pois os gestos grandes podem ser menos freqüentes pelo simples fato de serem grandes. E várias vezes o que se espera são pequenos atos freqüentes ao invés de grandes atos esparsos. 

Toda relação afetiva tem complicações que demandam esforços de todos os lados para que se resolvam e sirvam para a solidificação da relação. Estar atento aos sinais emitidos pelo outro é algo de extrema importância para fazermos uso da nossa liberdade tendo em vista sempre o bem estar da relação. Obviamente que aqui está envolvido o fato de que nem sempre fazer uso da minha liberdade significa fazer apenas o que quero, na hora que quero, mas inclui sempre colocar a demanda do outro na conta para que o outro seja uma espécie de balize para agirmos em uma determinada situação. 

Agindo dessa forma evitamos a tentação de Procusto de querer que todos se encaixem em nosso padrão de conduta e ação e respeitamos a liberdade do outro, pois sabemos que para ele nós somos amados e respeitados em nossos anseios e vontades. 



Por favor, não me analise 

Não fique procurando 
cada ponto fraco meu 
Se ninguém resiste a uma análise 
profunda, quanto mais eu! 
Ciumenta, exigente, insegura, carente 
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência 
um grito de carência, 
um pedido de amor! 

Amor, amor é síntese, 
uma integração de dados: 
não há que tirar nem pôr. 
Não me corte em fatias, 
(ninguém abraça um pedaço), 
me envolva todo em seus braços 
E eu serei perfeita, amor! 

(Do livro "Bom dia amor!", Mirthes Mathias, Juerp, 1990) 
Poema disponível em https://juliribeiro.wordpress.com/category/mirthes-mathias/ acessado em 08/06/2016