sexta-feira, 15 de maio de 2009

As vacas e o Reino







Nietzsche disse uma vez no livro “Assim falou Zaratustra”

“Se não tornarmos para trás e não fizermos como as vacas, não poderemos entrar no reino dos céus. Que há uma coisa que deveríamos aprender delas: é ruminar (...) Estas vacas de certo foram muito mais longe: inventaram o ruminar e cair no contrário. Assim se livram de todos os pensamentos pesados que incham as entranhas”. (p 203, 205)

Penso que hoje com a moda “fast food” que alcançou nossas igrejas, a tarefa de ruminar não faz sentido.

Dentro da dinâmica do “fast food evangélico”, a palavra (comida), deve ser preparada da forma mais rápida possível, de forma a atender a fome imediata do ouvinte (cliente), que também tem pressa porque tem que obter a “resposta divina”, o quanto antes para suas necessidades.

Estabelece-se assim uma relação muito tranqüila entre quem serve a comida e quem a consome. O pastor é aquele que deverá trazer a comida de forma mais rápida possível, (e quando digo rápido aqui, não me refiro a minutos e segundos, coisa que a maioria dos pastores não têm noção) e o cliente é aquele que comerá essa comida e aliviará sua fome imediata.

Vários programas de televisão já nos mostraram o perigo das comidas “fast food”, alguns chegaram até a fazer experimentos com um cara alimentando só de hambúrguer durante um tempo pra ver no que dava. Sabemos que as refeições “fast food” acabam por prejudicar nosso estomago, dentre outras coisas.

Mas e as vacas? Como disse Nietzsche, é preciso aprender com as vacas. Elas ruminam, e ao fazerem isso, elas fazem com que o alimento “caia ao contrário”, e com isso se livram dos pensamentos pesados que incham as entranhas.

Para quem não conhece Nietzsche, ele foi um filósofo do século XIX que amava a vida. Sua ênfase em uma vida que fizesse sentido permeia toda a sua obra. Ele era um homem de paixão infinita pela vida. Daí sua crítica à religião do seu tempo, que em nome de uma “nova vida celeste”, negava a vida terrena. Isso para ele não fazia sentido. Seus escritos revelam a sua paixão pelo bem mais precioso do homem, que não pode ser negado, isto é, a vida.

Ruminar para livrar dos pensamentos que incham as entranhas é demonstrar um amor pela vida, é um exercício que pouquíssimas pessoas fazem hoje dentro das igrejas evangélicas. A maioria age como se fossem comer em um “fast food”, e com isso ingerem todo tipo de coisa que é falada, sem ruminar, e seus pensamentos ficam pesados, suas consciências ficam entupidas de conceitos que em nada tem a ver com a proposta do reino.

Mas venhamos e convenhamos que o fast food é muito mais rápido e fácil. Ruminar dá trabalho. Ruminar nos torna seletivos. Não comeremos qualquer comida que nos for ofertada, selecionaremos melhor aquilo que entrará em nossos corações. Afinal é isso que sairá da nossa boca, como disse Jesus certa vez.

Se quisermos entrar no reino dos céus, precisamos aprender a ruminar. Aprender com as vacas. Pensar sobre o que ouvimos, fazer a palavra cair ao contrário, mastigar de novo, digerir de novo. Talvez se usarmos um jargão teológico fique mais compreensível. “Devemos ser como os crentes de Beréia, ”. Não aceitar qualquer coisa, ruminar, pensar sobre o que ouvimos.

Mas ser como o povo de Beréia, isso todo mundo fala, mas confesso que é algo muito raro ver alguém praticando isso. Mas por que é assim?

Porque geralmente isso não interessa para a maioria das pessoas. O que se quer é o “fast food”, é o ativismo, é ir à igreja aos sábados e domingos, talvez fazer alguma coisa em algum departamento, e de lá voltar para a casa com o sentimento de missão cumprida.

E aqueles que ruminam? Ah, esses são mal vistos, esses são os “críticos”, os que “só vêem defeito”, os que estão “nadando contra”, eles serão vistos assim por todos aqueles que apreciam o “fast food”.

Algo impressionante nas vacas é a constancia com que elas se portam. Cada alimentação é lenta, digerida calmamente, para depois procurar um outro lugar onde poderá se alimentar mais. O ruminar das vacas deveria ser uma prática nossa dentro de nossas igrejas, mas como já foi dito, o ativismo é a prática comum de nossas igrejas. Quanto mais rápido a comida sair, melhor; mesmo sendo sempre a mesma coisa sem sentido. O importante é ela ser de fácil digestão, e pouco trabalho.

Muito diferente é o mundo das vacas. Lá o tempo corre mais devagar, lá é possível pensar sobre o que foi dito, ruminar, e apenas reter o que é bom. Talvez seja isso que Jesus tentou fazer ao explicar a lei aos fariseus. Jesus tinha ruminado a lei, e retirado dela o essencial, i.e,

“Amarás o Senhor teu Deus, de toda a tua alma, de todo a tua força e de todo o teu entendimento, e ao próximo como a ti mesmo.”

Ao ruminar, livramos dos pensamentos pesados que incham as entranhas, conseguimos reter o que é bom, reter a essência daquilo que Jesus nos pede, Penso que, uma vez compreendido o pedido, poderemos agir de uma forma melhor para cumprir o Seu propósito para nós. Talvez seja isso que Nietzsche quis dizer com “Se não tornarmos para trás e não fizermos como as vacas, não poderemos entrar no reino dos céus.”

Fabiano Veliq 11/05/2009