sexta-feira, 19 de junho de 2009

a igreja narcísica








Muita gente já deve ter ouvido falar a respeito do "mito de Narciso". Para os que não conhecem ...


Nesse mito, Narciso é filho da ninfa Liríope, que significa voz macia e de Céfiso, deus fluvial, aquele que banha, inunda, conhecido por sua insaciável energia sexual, em cujas margens nenhuma ninfa poderia chegar e sair intacta.
Liríope passeava quando se aproximou das margens do rio, Céfiso a aprisionou e desse contato a engravidou. Para ela, tal fato foi repugnado, porém deu à luz a um menino de beleza inimaginável. Logo, Liríope atormentou-se, pois para os deuses, a beleza fora do comum é algo condenável e temido, pois possuir a beleza à altura das divindades é algo passível de punição.
A mãe de Narciso, em sua inquietude, decidiu consultar Tirésias, um velho sábio cego, que tinha o poder da adivinhação, para saber sobre o futuro de quem foi concebido em circunstâncias tão peculiares. Tirésias lhe respondeu que Narciso viveria até a idade madura, na condição de jamais ver sua própria imagem (Brandão, 1989).
Condenado a não ver sua própria imagem, os anos se passaram e ele tornou-se um adolescente muito belo, arrogante e desdenhoso por suas qualidades. Começam as paixões pelo filho de Céfiso, muitas o desejavam, capturadas por sua beleza. Porém, Narciso não se rendeu a nenhuma dessas paixões, ficando indiferente.
Dentre elas, havia uma em especial: a Ninfa Eco que havia regressado do Olimpo após a vingança de Hera, esposa de Zeus. Eles viviam em discórdias conjugais, pois Zeus era libertino, promíscuo e infiel.
Em obediência ao grande Zeus, Eco havia enganado Hera, enquanto ele a traía. Ao descobrir isto, Hera ficou extremamente humilhada com as aventuras de Zeus. Ele desonrou o que ela considerava de mais sagrado: o matrimônio. Então, Hera condenou Eco a não mais falar, limitando-a a repetir os últimos sons das palavras que ouvisse. Amaldiçoada, Eco foi compelida a nunca mais se expressar, replicando as vozes que não as suas.
Certo dia, Narciso estava no bosque e Eco, amante das aventuras campestres, o viu, encantou-se com sua beleza e o seguiu. Ele ficou perdido e foi surpreendido pelo barulho dos passos de alguém, gritou e discorreu a seguinte situação:
Narciso: Há alguém por perto?Eco : Há alguém.Narciso: Vem!Eco: Vem!Narciso: Por que foges de mim?Eco: Por que foges de mim?Narciso: Unamo-nos aqui!Eco: Unamo-nos!
O primeiro encontro foi marcado pela imagem bela de Narciso, que se deixa seduzir pela bela voz de Eco, que na verdade é a sua própria, escutando as palavras de Eco de modo a ouvir o que desejava. Eco, por sua vez, se viu diante da maldição: não ser amada pelo que é, mas como reflexo de Narciso nos sons que repetia. O desencontro e o mal-entendido se instalam.
Tal desencontro culminou na rejeição de Narciso, e Eco, após ter sido repelida tão friamente, se isolou numa imensa solidão e se transformou num rochedo condenada a repetir somente os derradeiros sons do que lhe diziam.
As demais ninfas, revoltadas com a insensibilidade de Narciso, pediram vingança à deusa Nêmesis, Deusa da Justiça. Em certa caçada, ávido por água, ele foi até o lago e observou uma sombra e ao olhá-la, ficou enfeitiçado com sua imagem e dali não saiu mais até sua morte, desgostoso com a impossibilidade de consumir sua paixão.
O mandato cumpriu-se e ele não conseguiu jamais alcançar a união amorosa com o objeto pelo qual se apaixonou. Ali ficou até sua morte e, quando procuraram seu corpo, encontraram apenas uma flor amarela, solitária e estéril - Narciso.


Narciso acaba por se apaixonar por si mesmo e com isso morre. Algo muito semelhante acontece hoje com o que chamamos igreja evangélica. Fica-se tão encantados com a aparente beleza, encantado em como se é bonito, em como Deus os ama, em como são "sacerdócio real, povo adquirido, propriedade exclusiva de Deus", que se esquece de olhar para o próximo, para aqueles que não tem parte na Terra, para os órfãos, os presos, as viúvas, os necessitados. Se apaixonaram por si mesmos, viraram Narcisos, encantados, apenas contemplando uma caracterísitca sua, e dessa forma se louva a Deus erguendo louvores, cantando alto, orando, enquanto nenhuma ação efetiva no mundo é feita. Que valor tem essas práticas? Na maioria das vezes penso que não passa de um elemento catártico, (onde os demônios pesoais são expulsos por meio das mãos levantadas que nada produzem para a mudança do mundo.) O destino desse tipo de igreja é o mesmo de Narciso; o de se afogar se contemplando


Penso que essa não é a proposta do reino. Vcs podem achar que eu seja repetitivo falando sempre a mesma coisa. Talvez um dos problemas da igreja evangélica seja saber em demasia o que se deve fazer, no entanto, não atravessar a ponte em direção a ação. Pensam muito parecidos com o idealismo alemão tão criticado por Marx.


Marx, nas primeiras páginas da ideologia alemã, faz uma caricatura do pensamento alemão de sua época. Ele afirma que esse idealismo acreditava que o homem se afogava simplesmente porque tinha a idéia de gravidade. Marx afirma que isso não faz sentido, e convoca os filósofos a não mais simplesmente fazerem uma crítica das idéias, mas partirem para uma ação frente ao mundo. Se o pensamento é como é, é porque a sociedade em que se vive determina isso. Não se trata portanto de uma mudança de consciencia, mas uma mudança da sociedade em que se vive. Diria Marx.


Penso que a mesma proposta Jesus fez aos fariseus de sua época. - Olha, vocês conhecem toda a lei e os profetas, no entanto vocês não agem de acordo com o que vocês sabem. Penso que Jesus poderia dizer como Marx disse. Olha, não se trata de mudar simplesmente de consciência, mas de atitude. No caso de Jesus com relação aos fariseus, trata-se de voltar à essência de Deus que é o amor. Não mais se preocupar apenas com a forma, mas voltar-se para a essência da prática que é aquela vinculada ao amor. Amor esse entendido sempre como uma prática visando o próximo.


Disse Jesus : "Nisso se resume toda a lei e os profetas: Amarás o Senhor teu Deus de todo o seu coração, de toda a tua força e de todo o teu entendimento, e ao próximo como a ti mesmo."