sábado, 30 de março de 2013

Não se deprima. Não se deprima...







Minha mãe, sempre que conversamos sobre tempos já idos, me diz que eu gostava muito dos "Menudos" quando era pequeno. Que gostava de dançar as músicas, principalmente aquela "Não se reprima". Para os mais saudosos, ela pode ser vista aqui.

Com certeza, no contexto da época, a música dos Menudos fazia todo sentido, afinal, os anos 80 foram marcantes para toda uma geração ávida por mudanças tanto estéticas,  culturais, etc. Nutrindo-se ainda das "revoluções" dos anos 60 e 70, os anos 80 ainda gritava por liberdade de expressão, liberdade corporal, etc. Isto tudo evidenciado de forma bem interessante pelos meninos porto-riquenhos dos Menudos. Essa busca frenética por uma identidade própria é algo que vemos crescendo e ainda hoje não podemos dizer que este fenômeno tenha acabado.

Gilles Lipovetsky, um filósofo francês, traz boas reflexões sobre como o culto ao individualismo promove atualmente várias mudanças de comportamento, dentre outras coisas.
A grosso modo, a proposta de Lipovetsky nos aponta que, o individualismo contemporâneo contribuiu e muito para o enfraquecimento das estruturas que mediavam a relação homem-mundo, tais como a religião, a moral, etc. Este enfraquecimentos faz com que o acesso do homem à "realidade" agora se dê de uma forma "direta", (A relação direta proposta por Lipovetsky é diferente da proposta de Dewey  pra quem o homem nunca teria um acesso direto à realidade, mas sempre mediada por algum tipo de visão de mundo, etc. Não cabe aqui apontar as diferenças entre ambos, mas cabe ressaltar que Lipovetsky pensa esta "relação direta" como acesso-não-mediado-por-estruturas, típicas de uma cultura individualista e não como acesso sujeito-objeto que seria mais próximo a Dewey.)  e isso aliado ao exacerbado individualismo constituído a partir do final do século XIX e todo o século XX, ajudaria o homem a desenvolver várias das chamadas "doenças psi", ou seja, a bulimia, anorexia, os aumentos dos casos de depressão, distúrbios de personalidade, etc.

Na análise dele, o fato deste homem precisar lidar de forma "direta" com esta realidade que o cerca faz com que ele em algum momento não consiga se manter unido em sua estrutura psíquica, e isto seria um dos principais agravantes do aumento das chamadas "doenças psi". É como se o "excesso de liberdade" almejado tivesse um preço muito caro que é pago pelo indivíduo de forma não pouco dolorosa.

Infelizmente não dá para desenvolver aqui a relação que Lipovetsky desenvolve a respeito da cultura do individualismo, e como isso agravaria o advento destas novas doenças, e até que medida as próprias estruturas são "reconfiguradas" para atender à lógica individualista. Para quem tiver interesse no assunto, recomendo a leitura as obras "A era do Vazio", "Hipermodernos" onde Lipovetsky aponta estas relações de forma mais detalhadas.

Obviamente que não há aqui nenhum tipo de saudosismo por parte de Lipovetsky em relação aos tempos idos. O que ele procura ressaltar é como que se pode estabelecer uma relação interessante entre o individualismo contemporâneo e o agravamento das "doenças psi".

O mundo hoje é um pouco diferente do mundo da década de 80 quando os Menudos fizeram sucesso. A repressão hoje ainda existe é claro, mas ela se dá de forma bem mais "sorrateira" que nos anos 60 ou 70. Pelo menos no Brasil, ninguém vai ser preço se criticar os militares, a Dilma, ou qualquer outro governante brasileiro. Em grande parte, a liberdade de expressão hoje é algo bastante difundido, e as redes sociais provam isto de forma bem nítida. As diversas campanhas no Twitter, Facebook contra Renan Calheiros, Marco Feliciano, liberação da maconha, dentre outras inúmeras, mostram que a repressão mudou seu "modus operandi".

Curiosamente a própria configuração atual que gera as novas "doenças psi" oferece os "remédios" para que o indivíduo se cure. Isto pode ser comprovado se observarmos como que hoje em dia é frenética a procura por "se estar bem". Práticas como acunpuntura, Yoga, Shiatsu, comer bem, praticar exercícios, tudo isto é enfatizado para que o indivíduo consiga "resolver" os problemas e não sucumba à depressão, bulimia, etc.

Dada a atual conjuntura brevemente exposta aqui a partir de algumas análises de Lipovetsky, acredito que para que os Menudos conseguissem fazer sucesso hoje, talvez ao invés de "não se repima, eles deveriam cantar "não se deprima".