quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Fissuras discursivas.








Em tempos tão nublados e cinzentos  temos que partir de um pequeno panorama da nossa sociedade contemporânea, e acredito que seja um ponto que não precisamos debater o fato de que nossa sociedade é a sociedade da perda dos metarrelatos. Um sociedade em que aquilo que antes estruturava a vida do sujeito de alguma forma, dando algumas balizas para ele estão há algum tempo perdidas, evaporadas. A religião, o Estado, o discurso classicista, esse tipo de coisa já a algum tempo perdeu o seu caráter balizador para o homem contemporâneo. (ou hipermoderno para usar a expressão do Lipovetsky) Da mesma forma qualquer tipo de "universalização dos comportamentos" esbarra no caráter cultural, etc.

O homem "desbussolado" (Miller) acaba sendo um pouco a condição desse sujeito contemporâneo. Nesse sentido que talvez entendamos essa "ausência de limites" diretamente associada à restrição da liberdade. Essa grande falácia contemporânea parece ignorar o fato de que o ser humano só se constitui como humano a partir do limite que é imposto pelo outro. O Outro é aquele que me barra, que me impede de fazer tudo o que eu quero. Reconhecer essa dimensão do Outro é extremamente importante e de cara rompe com esse ideal do "homem sem limite". 

Esclarecido isso, temos que reconhecer que o outro é parte fundante daquilo que eu sou e ele também é um ser que talvez pense diferente de mim. Sem este reconhecimento temos a enorme tendência de querer colocar todas as pessoas próximas a nós como iguais a nós mesmos, querendo impor a eles uma certa visão de mundo que o outro não compartilha.


Obviamente que há tantas visões de mundo quanto há pessoas no mundo, no entanto não podemos cair na grande falácia contemporânea do relativismo de forma a pensar que todas as visões de mundo são igualmente válidas pelo simples fato de serem visões de mundo de seres singulares. Tal relativismo nos conduz não a um reconhecimento do diferente, mas a uma igualação de todos os pontos de vista sob a égide de um único ponto de vista.
Algo muito bem explicado pela psicanálise é que o desejo só nasce a partir do limite. A partir da interdição da lei da palavra surge no homem o desejo. Lei e desejo humaniza o homem, e isto cada vez mais tem se perdido na contemporaneidade onde o grande imperativo se torna a ausência do limite como forma de satisfação do homem.


O que deixa o debate extremamente interessante é porque, pelo menos no Brasil, há sempre uma "acusação" em torno do caráter "retrógrado" de algumas posturas defendidas. Por mais que o caráter retrógrado várias vezes assuma um caráter extremamente subjetivo temos que ter em mente que tal caráter faz parte de determinada sociedade e que isso demora a ser mudado, de forma que todo tipo de tentativa "na tora" de alterar o status quo soa extremamente romântica e não raras vezes pouco efetiva. 

Quando alguém parece manifestar uma opinião que é socialmente tida como "bizarra" (tais como a de várias colocações infelizes sobre a menina Valentina de 12 anos do Masterchef Brasil Junior), o que vemos surgir é aquilo que o Durkheim chamava de "coercitividade do fato social". A sociedade me coage a agir de determinada forma, me coage a pensar de determinada forma e me coage a manifestar minha "opinião moral" sobre algo a partir daquilo que é aceitável ou não para determinada sociedade. Em última instância parece que é a própria sociedade que determina aquilo que seria ou não condenável e de alguma forma se impõe ao sujeito por mais que ele queira "sair" de suas garras. 

Nesse sentido fica claro que esbarramos sempre em um estranho e curioso paradoxo que é o fato de defender uma sociedade sem limites (que por definição é impossível, já nos dizia Freud e tantos outros depois dele), mas ao mesmo tempo condenarmos atitudes tais como a vista no caso da menina Valentina do Masterchef Brasil Junior. Já fica bastante óbvio que as duas posturas são inconciliáveis do ponto de vista teórico. Ou se tem limites (por mais largos que eles possam parecer), ou não se tem limite algum e tudo cai em um grande laissez-faire. Como já coloquei acima, a proposta de uma ausência de limites é completamente inviável pela própria característica do homem como ser de desejo que necessita do limite. Resta então tentar investigar "qual é o limite que uma sociedade é capaz de impor aos seus cidadãos"? Esta questão por si só é extremamente complexa e lida com diversos arranjos sociais que são difíceis de rastrear, ainda mais em um texto tão curto. 

É impossível respondermos objetivamente à pergunta sobre o limite em uma sociedade. O que podemos fazer é apenas traçar panoramas parcos sobre o que vivenciamos atualmente e a meu ver esse limite vem sendo cada vez mais alargado, mas sempre esbarra nos próprios arranjos sociais que por mais criticados que sejam ainda funcionam como pequenas balizas precárias para os indivíduos. A noção de equilíbrio parece funcionar bem aqui e talvez seja uma noção muito difícil de ser encontrada na vida prática, pois o mesmo discurso que exalta o "deixe que o outro viva da forma que ele quiser, ou na sua forma mais poética "viva e deixe viver", ou ainda "que nada nos limite"" é o mesmo que tenta condenar os "discursos pedófilos" quando eles aparecem. Parece que não há uma percepção clara de que os dois discursos são inconciliáveis. Ou eu "vivo e deixo viver", ou eu "condeno discursos pedófilos". O equilíbrio é que talvez vá funcionar como um critério para enfrentarmos essas situações espinhosas e apontar para uma proposta dialogal. Percebemos claramente aqui que o caráter legal por mais que possa "condenar o indivíduo" é também algo extremamente espinhoso, pois a lei longe de ser "universal" também se configura a partir da própria sociedade. 

Quero deixar claro que não estou defendendo os discursos pedófilos e nem muito menos defendendo que o ideal seria a sociedade sem limites. Aponto nesse pequeno texto apenas o caráter paradoxal desse discurso "pseudo-libertário" que vemos nas redes sociais todos os dias. Acredito que os discursos pedófilos que vimos nas redes sociais são extremamente ofensivos e não devem ser apoiados, mas não deixa de ser interessante notarmos como que a suposta liberdade apregoada se mostra como uma grande máscara para esconder fissuras estruturais que várias vezes fazemos questão de esconder.