quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A oferta da viúva pobre (Lc 21,1-4) - Pequena devocional






Em Lucas 21,1-4 conta-se a história da oferta da viúva pobre que entra no templo para depositar duas moedinhas enquanto os ricos entravam doando altas quantias de dinheiro. Jesus adverte os discípulos afirmando que a viúva deu mais que todos os outros, pois ela deu aquilo que tinha para o seu sustento enquanto os ricos davam do que lhes sobrava. 
A questão financeira da oferta, do compromisso com o templo é algo muito facilmente assimilável pela própria história e não raras vezes se ouve diversas pregações (perversas várias vezes) afirmando que a pessoa deve "cortar na carne e não apenas na gordura" na hora de ofertar, mas a meu ver o exemplo da viúva tem uma dimensão um pouco mais ampla que apenas a questão financeira. 

Para mim, podemos entender o exemplo da viúva vinculado à nossa experiência diante do outro. A atitude da viúva e a atitude dos ricos no texto podem ser entendidas como duas formas possíveis de lidar com a demanda do outro. Se por um lado os ricos tratam a demanda do ponto de vista meramente formal, a viúva encarna a assimilação do outro em sua dimensão mais íntima e isso a colocaria como aquela que foi capaz de "dar muito mais que todos".

Diante de um determinado problema que o outro nos apresenta não raras vezes nos apresentamos como os ricos no texto. Procuramos tratar a questão do outro de maneira distante, como se aquilo não nos dissesse respeito. Vamos até lá "doar" o que nos sobra para apenas cumprir com nossa obrigação social ou familiar. É nesse momento que surge a pergunta meramente formal pra saber se está tudo bem, pra saber como andam as coisas, etc. Nada ali nos move em direção ao outro e várias vezes torcemos para que o outro nem use de honestidade para conosco, pois isso nos demandaria um tempo que não estaríamos dispostos a doar. O mecanicismo da relação se mostra evidente assim como o mecanicismo daqueles que iam aos gazofilácios depositar suas ofertas. Iam apenas cumprir a lei que determinava a doação de ofertas ao templo, mas nada ali os comprometia com a causa. Era puro formalismo. 

Diferentemente, a viúva que doa tudo o que tinha se mostra como um modelo para pensarmos a nossa relação com o outro. Diversas vezes podemos acreditar que aquilo que doamos ao outro em nada o ajuda, em nada coopera com a sua situação, em nada o motiva a dar novos passos, e não raras vezes nos sentimos um pouco incompetentes por não sermos nós mesmos que propiciaremos a saída do outro da sua angústia, da sua tristeza, do seu desânimo. Um senso de responsabilidade nos toma de uma forma um pouco estranha e acreditamos piamente que nossas "duas moedas" em nada ajudará o outro a lidar com seu desamparo e com a sua tristeza. Jesus, no entanto, nos mostra que o valor não está na "quantidade" e aqui, nesse caso específico, nem mesmo na "qualidade" do que se doa, mas apenas no simples ato de se dispor a doar, no simples ato de "doar tudo o que se tem". 

Uma vez que na história a oferta é dada a Deus, o autor do evangelho faz questão de ressaltar que apenas Deus (no caso Jesus) é capaz de saber qual o teor, ou o que move os sujeitos em suas atitudes. Apenas Jesus seria capaz de "avaliar" se os ricos dão do que sobra e a viúva dá tudo o que tem, ou seja, apenas aquele que recebe a oferta é capaz de responder ao nosso ato, e só cabe a esse outro "julgar" se o que se doa é de fato "sobra" ou "tudo o que se tem". Fica bastante claro que para esse "julgamento" acontecer é preciso que uma dinâmica ocorra. A intenção pura do sujeito em relação ao outro é o que permitirá a diferenciação entre a oferta meramente formal da pergunta desinteressada, da pergunta sincera em que o sujeito se compromete de fato com o outro.

Assim como Jesus é capaz de afirmar a supremacia da oferta da viúva em relação a oferta dos ricos, é sempre o outro que será capaz de dizer o teor daquilo que nós oferecemos a ele. Se a oferta que damos a esse outro é uma oferta de darmos "tudo o que nós temos", uma oferta em que o que se oferece é muito mais do que um mero formalismo, mas a nossa própria alma, nossos anseios, nosso comprometimento com o outro, nossa preocupação, nosso desejo, então estamos próximos da oferta daquela viúva que dá tudo o que tem, então podemos "da nossa pobreza" tirar o mais puro ofertar, e isso nos dá a sensação de que a nossa responsabilidade para com o outro está sendo cumprida de forma simples, mas pura.

A oferta da viúva nos remete, portanto, à nossa dimensão de estarmos várias vezes em posição de ofertar algo a um outro. Essa nossa oferta na medida em que é "tudo o que temos" se mostra como uma oferta singular capaz de superar  os mais diversos formalismos, os mais diversos profissionalismos que se mostram na maioria das vezes extremamente mecânicos para o outro e várias vezes pouco o ajuda em suas situações. O se importar a tal ponto de "da sua pobreza" ser capaz de "dar tudo o que se tem" é algo que nenhuma outra oferta é capaz de alcançar. Por isso que a meu ver a oferta da viúva se sobrepõe à oferta dos ricos. A viúva é capaz de se preocupar genuinamente com o outro a quem oferta, e nesse sentido, sua pobreza se transforma em riqueza e sua atitude simples adquire um valor inestimável.

Nosso desafio é sermos como essa viúva pobre diante da demanda do outro, é estarmos dispostos a doar tudo o que temos para que possamos ser refrigério na vida do outro, para que nossas pequenas palavras, nossos pequenos gestos sejam sempre os mais honestos possíveis, longe de meros formalismos ou mecanicismos, para que assim toquemos o outro e sejamos instrumentos de bênção para aqueles que passam por nós. O convite é para que também ouçamos sempre o outro naquilo que ele nos responde, pois aquilo que para nós é sem valor, é "nada" pode significar para o outro muita coisa, pode significar "tudo" em determinados momentos. Assim, da nossa pobreza aparente surge um grande tesouro para o outro, e isso não é pouca coisa.