domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre o caminho de Emaús






Uma amiga minha colocou em seu blog um texto sobre o suicídio. Achei o texto muito interessante e confesso que, no final, me fez lembrar o texto de Lucas 24 onde os discípulos estão caminhando para Emaús e Jesus aparece a eles.

Isso porque, as vezes o caminho é longo. As vezes precisamos de alguém que nos faça relembrar a esperança perdida, que façam os gestos que nos farão converter, que nos farão ver as boas novas que estão sempre presentes diante de nós, que farão com que nossos olhos se abram, contemplem o que precisa ser contemplado. Faça arder nosso coração pela vida que está diante de nós, que está a nosso alcance enquanto caminhamos, mas que as vezes não percebemos pois a esperança já se foi há muito tempo. Nossos planos, nossos prospectos, se perderam por algum motivo.

O que nos resta é apenas a lembrança da morte, a lembrança dos maus momentos que passamos, lembrança da morte daquela que, talvez seria nossa única esperança para ver o mundo de forma diferente.

As vezes precisamos de alguém no caminho conosco, alguém que nos faça entender que talvez foi apenas uma fase, que há esperança ainda, que ela aflora diante de nós. Que o sol voltará a brilhar. Talvez seja isso que Jesus fez aos discípulos. Talvez seja isso que devemos ser para aqueles que estão no caminho conosco. Anunciadores da esperança.

Por isso me fez lembrar o texto de Emaús.



Acho interessante nesse texto o fato de Jesus não ter se revelado diretamente a seus discípulos, mas antes, estes colocaram pra fora todas as suas dúvidas, seus anseios, suas posições sobre o ocorrido.
Eles expuseram aquilo que os estavam incomodando, aquilo que incomodava a alma deles. O discurso dos discípulos era sem esperança. Era um discurso triste, expondo que talvez toda a confiança depositada em Jesus teria sido em vão, e que nada mais poderia resolver a situação.
Para os discípulos, não era suficiente eles terem ouvido que algumas mulheres teriam ido ao sepulcro e visto o túmulo vazio.
Não é no nível do discurso que as coisas se resolveriam, que a coisa tornaria a ter sentido. Eles precisavam de algo mais. Eles precisavam "ver" algo. Precisavam contemplar novamente a esperança que havia se perdido.

Jesus então passa a expor aos discípulos tudo o que os profetas e Moisés falaram sobre ele. Começou a explicar que, seria necessário o Cristo padecer, cumprir o propósito do qual os profetas e Moisés haviam falado.
Mas mesmo essa exposição não foi convincente aos discípulos. Mesmo assim, eles não conseguiram fazer as associações necessárias. Darem o salto e contemplar o além das palavras.

Eles insistem pra Jesus ficar com eles. "Fica conosco, pois é tarde e o dia já declina" foi o que disseram a Jesus.

Nesse instante a mágica aconteceu. Jesus sentou à mesa tomou o pão, abençoou-o e o partiu. Nesse instante, mediado por um gesto, é que os olhos deles se abriram.

O gesto de Jesus à mesa, falou muito mais do que todas as palavras durante o caminho.

O gesto fez com que eles tivessem os olhos abertos. Contemplassem para além das palavras, das histórias, compreendessem realmente o que estavam acontecendo.

Só então esclarecidos, que eles se voltam um para o outro e dizem: "por um acaso, não ardia o nosso coração quando, pelo caminho, ele nos falava, quando abria as escrituras?"

Tomar o pão e abençoar, foi o gesto que fez com que o dito, adquirisse uma outra dimensão. O gesto falou muito mais que todas as palavras durante o caminho.

Talvez fosse essa a dimensão das parábolas que os discípulos não conseguiam entender.

Que parábolas, são milagres em palavras, e milagres, são parábolas em ação.

Só quando se contempla para além do que é dito, que consegue ver o que realmente importa. No caso do caminho de Emaús, o gesto foi o definidor das coisas.

Mas não podemos menosprezar o caminho por causa disso. No caminho há a revelação da parte dita. Há a exposição daquilo que levaria os discípulos a contemplar o que realmente importava. Mesmo que as palavras não fossem "definidoras", elas eram necessárias para que eles dessem o salto, e vissem o que precisava ser visto.

No caminho vemos o discurso da "desesperança" dos discípulos, seguida do discurso da "esperança" do Cristo, sendo que no final, temos o gesto, que transcende a esfera das palavras, e os fazem dar meia-volta (converter) e irem aos outros contar o que eles viram.

Palavras. Pequenas ferramentas para ajudar os discípulos a contemplarem o que era para ser visto. Nesse caso, poderia ser dito: Quem tem olhos para ver, que vejam.