quarta-feira, 17 de março de 2010

Sobre pontes...










Tentei te trazer para perto de mim, mas não sei por qual motivo, você não quis se aproximar.




Ao invés disso preferiu se afastar, ir para longe, sumir, ir para um lugar onde eu não poderia mais te alcançar.






Tenho medo de talvez ter sido eu que tenha te levado pra lá, tenha te conduzido para este lugar distante onde ninguém mais é capaz de te alcançar.






Paro e penso, acho que não teria tal poder. Acho que o máximo que poderia fazer é te afastar de mim mesmo.






Alguns já me disseram que acham tudo isso muito estranho. Não entendem como que um abismo tão grande se formou.






Tal situação me fez lembrar de uma vila que conheci há um tempo atrás.






Era uma certa vila não muito longe daqui onde havia um abismo. A face do abismo dominava toda a população que se constituiu ao redor dele. Por causa disso, a vila era totalmente sem vida, totalmente gélida, apática. Como a vila estava construída ao redor do abismo, uma metade habitava de um lado, e a outra metade, do outro lado, as pessoas não se conheciam, apenas trocavam algumas palavras esparsas entre as paredes do abismo. O fato de habitarem diante do abismo, fez com que eles criassem entre si abismos que se tornaram intransponíveis.






No entanto, certo dia alguém resolveu construir uma ponte. Ele pensou que com ela, seria possível haver comunicação entre os lados do abismo.






Ele construiu a ponte, e ela era tão bonita, tão vistosa, que com o tempo começaram a passar várias coisas por ela.






Passava tanta coisa boa sobre ela, as pessoas riam nela, conversavam sobre ela, dançavam, brincavam, olhavam o horizonte, e os dias passavam como se fossem pequenas horas diante de tão bela paisagem. As manhãs pareciam se recobrir de um brilho que há muito tempo não se via naquele lugar antes tão gelado e vazio. Pessoas dos dois lados do abismo agora podiam abandonar os gestos esparsos e finalmente ter algum contato mais próximo.






A construção daquela ponte era um grito de esperança em meio a todo aquele ambiente sem vida. A ponte representava o clamor de tantos que esperavam poder contemplar um horizonte novo para além dos vales cobertos de gelo.






Aahh belíssima ponte sobre um abismo aparentemente intransponível.






Ela mostrou àquela população que é possível transpor o abismo que eles mesmos tinham criado.






Mas por algum motivo a ponte parece querer ruir. Talvez seja o tempo que tem sido muito severo nessa época do ano, talvez seja o material usado na construção da ponte que poderia ter sido melhor preparado para suportar as intempéries... Sei lá, pode ser tantos motivos...






Os habitantes daquela região lastimam que a ponte dê aparências que esteja ruindo. Resta ainda a esperança de que ela não desabe, que ela resista às intempéries e continue proporcionando bons momentos para os habitantes daquela região tão inóspita.






Lembro de alguém comentar comigo certa vez que aquela ponte era a única coisa que a fazia continuar morando naquele lugar. Tal pessoa desejava de todo o coração que a ponte não ruísse.






Eu acho que esse era o desejo de todos que já viram, ou já passaram por aquela ponte.






Até onde eu sei a ponte ainda está lá. Ainda não ruiu. Talvez hoje ela apenas precise de alguns reparos para que os bons momentos vividos sobre ela possam ser recuperados, e o abismo, possa novamente ser visto como paisagem e não como condição.




Convido-te e a quem quiser vir, a construirmos pontes para transpormos os abismos criados ora por nós mesmos, ora pelas condições que nos cercam.




Convido-te também e a quem quiser vir, a mantermos as pontes que construímos, a não deixar que ela desabe, afinal, dela se podem ver belíssimas paisagens e viver momentos inesquecíveis.