segunda-feira, 15 de março de 2010

Um pouco sobre lucas 18








Pequeno ensaio sobre Lucas 18 (v.1-8 e 35-43)

Na Bíblia, acreditamos que todas as coisas também se interligam e todas tem uma conexão dentro de um contexto geral, histórico, político etc. Acreditamos que todas as passagens bíblicas possuem uma conexão entre elas e que há um propósito em cada uma dessas passagens . Em cada parábola, cada milagre de Jesus, há uma relação , e um propósito. Eles não estão dispostos aleatoriamente dentro da palavra de Deus. A pregação de Jesus fazia sentido porque aquilo que ele ensinava por meio das parábolas, ele demonstrava através de milagres, e não apenas por isso, mas também pelo fato de que ele conhecia o coração daqueles à quem falava. Jesus conhecia a sua audiência.

Há já algum tempo, tenho pensado a respeito de uma premissa que ouvi uma vez em uma igreja simples do bairro céu azul em Belo Horizonte.

A premissa que eu ouvi e que achei bastante interessante foi dita pelo Presbítero Mário Fernando Campos em 2001 e esta premissa é que pretendo demonstrar neste pequeno ensaio. A premissa é: “Parábolas são milagres em palavras, e milagres são parábolas em ação “. A demonstração desta premissa será feita a partir de duas histórias de Lucas 18.

Essa premissa pode ser transposta sem problemas para outros textos dentro inclusive do próprio texto de Lucas 18, mas me aterei aqui à parábola da viúva persistente e o mendigo cego que é curado por Jesus.


O texto de Lucas 18 se inicia com a parábola da “viúva persistente” (NVI).
O objetivo da parábola segundo Lucas, era sobre o dever de orar sempre e nunca desanimar. (v.1).

A história se passa em uma cidade que não é citada qual é, e o texto afirma que lá havia um juiz que era iníquo e uma viúva que se dirigia sempre a ele pedindo que ele julgasse a sua causa(v.2).

Jesus parecia fazer alusão a uma situação corriqueira de sua época, uma vez que as viúvas várias vezes tinham que recorrer aos juízes para que os seus direitos lhe fossem conferidos.

A figura da viúva no novo testamento, assim como no antigo testamento, é a representação das pessoas simples, pobres e que a única dependência é Deus. A lei de Israel obrigava o israelita a ajudar os órfãos e as viúvas.( Ex. 22:22,, Dt. 10:18,Sl. 68:5, 146:9, Is.1:17). A escolha da viúva como protagonista da parábola é muito importante para representar o milagre que será feito ao final do capítulo.

O juiz do texto, como já afirmado, era um juiz iníquo que não se importava com os homens e nem com Deus. (v.4),mas que mesmo assim faz justiça à viúva. É interessante notar que a atitude do juiz não consistia em uma atitude moral, uma vez que ele não temia aos homens, e nem uma atitude religiosa, o por alguma convenção que precisaria ser adotada, mas sim em uma atitude de conveniência. A sua preocupação era simplesmente um alívio do incômodo que a viúva lhe proporcionava. Mesmo sendo iníquo, ele faz justiça a viúva. O texto diz “justiça” e não simplesmente a julgou, sem preocupar com o adversário dela, mesmo sendo iníquo e não a julgando por um aspecto moral, ou religioso, ele faz justiça à viúva.

O exemplo é muito bom para ilustrar a preocupação de Deus em responder as súplicas dos seus servos, no entanto, no versículo 8 Jesus faz uma indagação curiosa que aparentemente destoa do resto do texto. “Porventura quando vier o filho do homem, achará fé na terra ?” (v; 8).

Jesus ao questionar isso, coloca em questão até quanto tempo estamos dispostos a esperar para que a justiça divina seja feita? Até quando teremos fé? É essa a indagação de Jesus.

Deus é comparado no texto a um juiz que fará justiça àqueles que o buscam mesmo parecendo tardio em atendê-los. Mas a justiça de Deus é realizada a partir da fé de seus servos. Cremos que Deus fará justiça porque isso faz parte de sua natureza.

O fato de Deus ser justo implica que creiamos que a justiça será feita mesmo que demore.
Assim como a viúva cria que o juiz faria justiça à sua causa, a transposição para Deus se dá de forma direta, pois por esse mesmo motivo nós recorremos a Deus. O juiz para a viúva representa a própria justiça, assim como Deus representa a justiça no âmbito maior para aqueles que acreditam Nele.

A parábola da viúva pode ser transposta para a cura do mendigo cego com uma riqueza de detalhes incrível.
O texto de Lucas cita que Jesus estava indo pra Jericó e um cego a beira do caminho estava pedindo esmola. (v.35)


A figura do mendigo a beira do caminho (v.35) é análoga a figura da viúva a beira da sociedade e que insiste que sua causa seja julgada.(v.3)¹.

“A beira do caminho” dá uma idéia de marginalização. A viúva da época de Israel várias vezes eram esquecidas e viviam como que marginalizadas pela sociedade e recebiam esmolas ,assim como o mendigo também vivia a partir das esmolas que recebia.
Um fato interessante a ser notado é que o mendigo começa a clamar a Jesus insistentemente,(v.38) assim como a viúva fazia com o juiz iníquo. (v.3)

O adversário da viúva pode ser transposto para a multidão que impedia que a cura fosse concedida ao cego. A figura da multidão também é bastante interessante e se coloca várias vezes como um adversário na busca da justiça. Em vários milagres de Jesus, a multidão simboliza um empecilho para que o milagre seja feito. (Lc 8:42-48, 9:37-45, 7:-11-17 etc.)

Algo interessante a ser notado é que Jesus não simplesmente curou o cego, mas primeiramente ele perguntou à ele o que ele queria que lhe fosse feito. (v.41).
Essa pergunta enfatiza ainda mais a transposição da parábola para com o milagre. Jesus ao perguntar o que o cego queria, ele faz o papel do juiz que pergunta a parte interessada qual o motivo de sua queixa. O cego por sua vez, tendo conhecimento de sua necessidade, pede que Jesus o cure. (v.40).
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1- A figura do mendigo é análoga da viúva, mas com algumas ressalvas; não afirmo aqui que o mendigo exigia também o seu direito de cura. Não há nada na passagem de Lucas que afirma que Jesus estava cumprindo um direito que o mendigo por um acaso tivesse.

Esse também é outro aspecto muito interessante dessa cura, porque o cego conhecia a sua necessidade, e insistia porque tinha consciência de que poderia ser curado. Ele poderia ter pedido qualquer outra coisa, mas ele sabia e conhecia a sua necessidade e por isso pediu aquilo que ele realmente precisava naquele momento.

Assim também a viúva. Ela podia ter pedido comida, roupa, uma casa, afinal não sabemos qual era a necessidade dela no texto. Mas ela vai pedindo aquilo que ela precisava.

Esta parte nos faz refletir também, em como deve ser nossa atitude em relação a Deus. É bom que saibamos o que pediremos quando chegarmos na frente do juiz. Tiago já nos adverte quando afirma que pedimos e não recebemos porque pedimos mal (Tg 4:3). Essa atitude do mendigo e da viúva é algo que tem grande aplicação em nossa vida. Se puséssemos em prática o que a palavra nos ensina por essa parábola acredito que nossas orações seriam bem mais proveitosas.

O mendigo vai até Jesus assim como a viúva vai ao juiz.

Como afirmado no início deste pequeno ensaio, a premissa: “parábolas são milagres em palavras, e milagres são parábolas em ação” fica comprovada pela transposição da parábola da viúva persistente ao milagre da cura do cego em Jericó.

Há no entanto várias outras passagens onde esta transposição pode ser feita.
Não pretendi aqui esgotar o assunto uma vez que a analogia pode se estender de várias formas trazendo inúmeras aplicações tanto na via prática como na via teórica. O que pretendi fazer foi esboçar uma reflexão sobre o texto de Lucas 18 estabelecendo a analogia proposta de que parábolas são milagres em palavras, e milagres são parábolas em ação.












Bibliografia.
1- Bíblia de referência Thompson, tradução de João Ferreira de Almeida, Editora Vida 5ª impressão, São Paulo SP 1996
2- Bíblia NVI ( Nova versão internacional) , Editora Vida, São Paulo SP 2000