quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um cubo de gelo







Queria poder contar a história sobre um cubo de gelo que se contempla diante do espelho.

Fiquei conjecturando, conjecturando, conversei com uma amiga, que me olhou com uma cara do tipo : "Fabiano, o que você está querendo dizer?", mas a história que queria poder contar não me saiu da cabeça.

Como seria se um cubo de gelo se encontrasse diante do espelho e começasse a se olhar?

Ele se olharia e veria o que ali?

Nesse olhar ele veria a si mesmo? para além de si mesmo? pois ele seria transparente;
Penso que talvez haveria um núcleo nele onde a transparência se perderia. Bem no seu centro sempre há uma parte que é mais branca. É como se de lá saísse sua transparência. Talvez essa parte branca seria a única coisa para que ele visse na sua imagem no espelho, algo que fosse propriamente seu.

Se ele fosse completamente transparente, ele não se veria, veria apenas o que o cercava, veria apenas o mundo à sua volta, mas não se contemplaria.

A parte que o faz não-transparente é o que o permite se ver, é o que permite não se misturar com o restante do ambiente; é o que o permite ser ele mesmo diante do espelho que apenas reflete o que aparece à sua frente. É na diferença entre as duas transparências (espelho e cubo de gelo) que reside a imagem do cubo de gelo. É por causa dela que o cubo pode se ver.

O lugar de onde parece emanar a transparência é a única parte no cubo de gelo que o faz ver a si mesmo, suprime a transparência.

Paradoxal.

Enquanto houver a parte branca, ele permanece gelo e pode ser refletido.
Um cubo de gelo se mostra ao espelho. Quando o cubo se derreter, a parte branca sumirá, deixará de ser gelo, não haverá mais reflexo de si, apenas o mundo, apenas um espelho.

Falando sobre o cubo de gelo, acabei falando de mim, talvez, falei de ti, talvez, falei de nós.